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    Da série ESTUDOS TEÓRICOS PARA VIVER MELHOR NA PRÁTICA: Boas teses ordinárias e o teatro para Brecht

    Acho meio patético gente que se leva à sério demais. Uma adultice sem tamanho, que associa voz grave a boas idéias e sombracelha franzida a argumentações sólidas. Pra mim, isso não passa de uma balela. Podemos dizer as mais pertinentes coisas de maneira leve e tranquila, com consistência e seriedade, ainda que sem um pingo de austeridade.

    Eu e alguns amigos somos partidários da leveza e da liberdade diária nas ações e pensamentos. Suamos um bocado (e diariamente) para colocarmos na prática idéias que soam tão bem no discurso, mas que às vezes fundem nosso cérebro por sua acachapante força. Alguns princípios são bem simples, e tenho repetido isso por aí para ver se mais pessoas se engajam nessa onda de simplificação. Ou, pelo contráriopara ver se alguém me mostra que estamos todos equivocados ou me põe a refletir sobre o que tenho aplicado dia a dia.

    (Pensamentos repetidos, em fase de eterna construção e revisão, que podem mudar a qualquer tempo. Porque estou aqui pra ficar bem, e não para ter um busto erguido a minhas teorias pseudo-filosóficas. )

    Alguns:

    "Eu sou livre, você é livre, nóóóóóós somos livres" - para escolher, pensar e discordar do que quiser. E pra mudar de opinião quando julgarm necessário, afinal.

    "Sem conotar" - serve muito para relações afetivas e toda sorte de convites sociais. Ao declinarmos de um convite simplesmente dizendo 'não quero ir' ou 'estou cansado', é comum as pessoas pensarem que se trata apenas de um eufemismo para algo como 'não quero ir porque não gosto de você, que é chato, bobo, feio e mal-educado' ou algo que o valha. Que saco! Partindo do pressuposto que eu realmente poderia dizer coisas ruins sobre você se eu precisasse ou quisesse, porque eu precisaria mentir por uma coisa tão simples?! S-e-m c-o-n-o-t-a-r, porque muitas vezes o que dizemos quer dizer apenas o que estamos dizendo mesmo, ora bolas!

    "Leveza, minha gente!" - porque austeridade não é sinal de seriedade, peso não é sinônimo de profundidade e falta de sorriso às vezes significa apenas uma escovação dental deficiente na infância.

    (...)

    Decidi escrever sobre isso lendo uma dissertação sobre Brecht, homem de teatro que meteu muito o dedo na ferida (em todas elas) ao longo da vida, e que era declarado defensor da leveza, como revela o trecho abaixo.

    "Por muitos que sejam os elementos considerados indispensáveis à arte de fazer teatro e que queremos abandonar para servir os nossos objetivos, penso que há pelo menos um que deve ser mantido a qualquer preço: a sua leveza. Ela não nos impede em nada, mas ao abandoná-la teríamos que forçar demais o nosso instrumento, a ponto de o degradar. Pois há por natureza qualquer coisa de leve na arte de fazer teatro. Este ato de se maquilar, de tomar poses ensaiadas, esta reprodução do mundo com um mínimo de pontos de referência, este ato de representar a vida, estas graças e estes cortes, tudo isto deve manter a sua alegria natural, sob pena de se cair na tolice. Com esta leveza é possível obter qualquer grau de seriedade, sem ela não é possível obter nenhum." - IN: BRECHT, Bertolt. A compra do latão (1939-1955). Lisboa: Vega, 1999. P.122 23



    Escrito por A dona do jardim às 22h40
    [] []



    Da série FILOSOFIA DE BAIXA DOS SAPATEIROS: Elixir de liberdade

    Acho, de verdade e com meu coração inteiro, que as pessoas são livres para viverem e pensarem o que quiserem.

    (Este texto fala profundamente de mim e de escolhas pessoais que reitero a cada dia. Se minhas zonas abissais não te interessam, clique aqui e vá ler coisas melhores)

    Acredito mesmo que todos são capazes de viver sem minha aprovação, que minha opinião só deve prestar contas a minhas próprias idéias (com acento, minhas idéias sempre hão de ter acentos agudíssimos...). E a recíproca é verdadeira: pouco importa o que você achar de mim, de minhas escolhas, minhas roupas, meus risos e meus caminhos.

    (Arrogância máxima da menina que já brincou tanto sozinha).

    E, sinto que isso às vezes ofende muito as pessoas, que talvez tenham a esperança de que elas sejam consideradas importantes em todos os 194 países dos 06 continentes.

    Não que eu seja mega-segura, não é isso. Muito pelo contrário; eu sou tão, mas tão feita de açúcar que se eu ficar pensando em não desagradar ou ser vista com desdém ou falta de admiração ou qualquer outro sentimento não-lisongeiro por algumas tantas pessoas, eu não iria fazer absolutamente NADA de minha vida. Mas nada, nada, nada, bote nada nisso. Usando a máxima "não fazer para não errar" eu certamente estaria segura no meu lar de fantasias, repleta de certezas de um dia estar pronta para mostrar as múltiplas habilidades conquistadas ao longo de anos de planejamento rigoroso.

    (...)

    Não; não viver para não me ralar, de fato, não faz meu gênero...

    A vaidade, bichinha perigosa, às vezes escolhe meu ombro como morada, e habita ali por dias, às vezes semanas ou meses, soprando nas minhas orelhas planos cabulosos de dominar o mundo. E nesses tempos de desagradável visita, me sinto querente de ser gostada por todos, numa síndrome-de-capa-de-revista que arrancaria os cabelos das mais equilibradas das fêmeas. E me gasto por horas imaginando maneiras eficientes de fazer até os vietnamitas saberem como eu sou uma mocinha talentosa e interessante...

    Venhamos e convenhamos, o mundo tem 7 BILHõES de pessoas. É gente demais, demais, demais, demais, demais, demais, demais, demais. Dá até cansaço em pensar quantas dezenas cabem num bilhão. Ui! São muito mais do que meus devaneios mais bem devaneados poderiam abarcar. Entonces, como dar de querer agradar esse povaréu todo? (Para quê, mesmo?!) Tarefa ingrata, inútil e pueril que há muito abandonei porque notei não fazer nada bem pra meu juízo  - isso sem falar de minha pele.

    Assim sendo, nasce a minha maior compreensão de liberdade de todos os tempos: eu posso achar o que eu quiser de qualquer coisa, pessoa, vegetal, animal, mineral ou numeral, que nada, absolutamente coisa alguma, muda na estrutura do mundo. E isso acontece exatamente da mesma forma quando é das pessoas para mim. Se elas acharem meus cabelos feios, eles não caem ou ficam menos brilhantes. O mesmo se dá com minhas idéias (com acento!), amantes, talentos, escritos no blog, projetos profisionais ou receitas de bolo. Simplesmente porque se há 7 BILHÕES de gentes neste planeta, há de haver alguém que goste das minhas coisas como são. E que admire as mesmas coisas que eu. Há iguais por aí, com quem poderei buscar compartilhamento e reconhecimento quando estes se fizerem necessários. Não falo nem de louros e rasgação de sedas que pouco servem pra vida prática; falo mesmo de coisas que servem pra assegurar espaços saudáveis de trabalho e de retorno social-afetivo. Necessidades que permeiam a lista de gêneros básicos desse gregário bicho-homem que sou.

    Sempre tem gente que falará a mesma língua que eu, então não preciso me gastar tentando convencer os que me acham só chata que eu sou bacana. Deixa achar.... Tem gente que vai me achar legal. Se não, se pelo menos eu me gostar, já é um bom começo, ora bolas!

    E me nutro da certeza de que haverá sempre muitos com quem eu me compartilhar por aí. Basta estar com tempo pra procurar. E nada de dar de querer agradar o mundo inteiro, que isso é maluquice! Afinal de contas, tantas formas de viver existem quantas forem as almas entre o céu-que-nos-cobre e o chão-que-nos-segura.

    Ou não....

    (...)

    Mas, na dúvida, vou vivendo do meu jeito, sem vender minhas fórmulas para ninguém que não seja capaz de duvidar delas e deixando claro que só ingira meu elixir se estiver disposto a colocá-lo para fora em caso de reações alérgicas.

    Não quero mesmo ficar rica com minhas idéias (com acento!). Para que querer ter razão se eu posso antes me preocupar em me divertir testando novas formas de existência e, quem sabe, me divertir um pouco nos anos que me esperam?



    Escrito por A dona do jardim às 02h08
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    Da série PRATICIDADES DIÁRIAS: De 2ª a 6ª

    Atualizações de ordem prática sobre os meus dias que certamente não interessam a pessoa alguma:

    1. Estava andando em uma direção, certa de que o mapa me indicava um bom caminho; mas bastou um vento nas idéias (com acento, minhas idéias ainda têm acento agudo para-todo-sempre-amém) para eu desconfiar da estrada à minha frente, desconfiar do desejo de ir pra o sabe-se-lá-onde que eu estava indo e até desconfiar os mapa que tinha nas mãos. Ou seja: me vejo sentada de novo no meio do caminho, com meu coração em Rosa-dos-Ventos;
    2. Antigos afetos reaparecem e me deixam sorrindo e novos afetos se candidatam e me deixam apreensiva;
    3. Era pra eu estar em Porto Alegre hoje, mas com tantos porquinhos espirrantes é até melhor que eu tenha adiado;
    4. Semana de surto psicótico de tanto trabalho e um crescente respeito por um certo moço dramaturgo, com sua objetividade e humor peculiares (e sem viadagem!);
    5. Como não amar uma pessoa que além de talentosa é inteligente e cuidadosa?;
    6. Por favor, ninguém mais me fale de Shopie Calle. Eu quero MUITO ver, mas de tanto o povo babar o ovo eu já tô me enjoando;
    7. Fragmentos começa na 2a feira e tenho uns 15% do material que deveria ter. Bonito pra minha cara!;
    8. Estou pra me matar de ansiedade com meu (atrasado por minha culpa) Mestrado. Mas ainda tenho tempo de reverter isso e é isso que vou fazer!
    9. Aulas de boxe 3x por semana;
    10. Eu, moça tão boba, humorada, esforçada e incansável, não poderia mesmo ter paciência com gente lamurienta...
    11. Vontade de  viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar, vontade de viajar...

    Ufa... Como é que eu me aguento?! rs



    Escrito por A dona do jardim às 02h55
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    Da série MESTRANDO-ME: Canção para dar o troco

    Reste parmi les tiens

    pour être mieux des nôtres.

    Abats le cyclone chez toi

    et tu abattras les nôtres.

    Reste parmi les tiens

    et tu seras des nôtres.


    Extraído de La Machine Excavatrice, peça de Armand Gatti que tem me jogado seguidamente na lona na luta com a língua francesa, por conta da transbordante poesia de seus diálogos.

     



    Escrito por A dona do jardim às 12h26
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    Da série EXERCÍCIO DIÁRIO DE FELICIDADE: Ao meu modo

    Conclui que estou enorme de gorda; percebi que sou muito querida por alguns; notei que tenho amigos recentes que são para sempre; assumi que é hora de ser estudante de verdade; me enxerguei profissionalmente daqui a 5 anos e fiquei satisfeita com o que vi; decidi reaver minha disciplina; meu dinheiro cansou de fugir de mim e tem se mantido por perto; tenho pensado como artista e agido como dona de meu trabalho; minha gastrite avança e meus cabelos crescem.

    (...)

    Ai, este é meu momento. Com coisas boas e outras nem tanto. Consciências e suores necessários. Estou satisfeita!

    E, vá-de-retro-mangalô-três-vezes os olhos gordos que outrora impediam de compartilhar com que quiser a felicidade sobre minha modesta rotina.



    Escrito por A dona do jardim às 19h33
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    Da série MUDANÇAS DE ROTA: Trânsito interrompido

    Sou repelente a algumas coisas. Em geral não chego muito perto de situações que me fazem mal, seja porque me encantam a ponto de perder o juízo ou então por carregarem minhas energias ralo abaixo.

    (Todos os esotéricos-gurus-sábios-amigos que me conhecem afirmam categoricamente que sou uma esponja de energias, de todo tipo e cor e sabor e natureza).

    As celebridades são meu foco de repelência número 1: eu as expulsei de minha vida ainda adolescente, depois de quase enlouquecer com paranóias de magreza e comparações com as mulheres de NOVA. Ainda hoje eu sinto minha saúde mental fortemente ameaçada por capas de revista e sites de fofoca, que sempre me fazem sentir uma completa gorda-idiota-fracassada, coisa que estou realmente muito longe de ser.

    Registrada a repelência número 1, passemos a mais importante, que de fato significa uma guinada para esta que vos escreve.

    Do que tenho mais fugido ultimamente é de gente pessimista e lamurienta. Simplesmente não aguento mais! Passei por momentos de mudança profundos desde o ano passado, incluindo saltos-mortais-duplos-carpados-de-costas na profissão, redefinições de vida diária e - esta certamente a alteração mais drástica de rota - o final de um casamento. E mesmo assim distribui otimismo, votos de coragem, carinho e bom humor para amigas necessitadas e colegas confusos. Meu verbo serviu a muitos, minhas orelhas a tantos outros, e me perguntei em dado momento se não estava apenas doando minhas energias para o buraco negro dos outros.

    (Tic-tac-tic-tac... Isabela pensa um pouco ao longo de meses....)

    Pois bem. Sou forte, sim; hoje já aceito o fato de cuidar de mim por talento nato e não apenas por solidão ou necessidade. Mas não tem mais porque eu gastar meu didatismo com quem prefere ficar sentado à beira da estrada chorando a falta de tônus para sua caminhada. Talvez a minha tendência a me deter junto aos que desistiram - ainda que temporariamente - surja de um desejo de me sentir útil para alguém ou amada por quem quer que seja ou de me sentir mais poderosa que um outro ou de me saber mais bem-humorada perante aos tropeços. Ou por todas as opções anteriores.

    Mas, certo dia, debruçada pela enésima vez nos hematomas de joelhos alheios e sugerindo a milésima possibilidade de resolução de problemas que não eram meus e contando piadas tantas para alegrar almas de outros e suando para injetar ânimo em um espírito que nada me devia, pensei que talvez aquele ali sentado não quisesse mesmo se levantar. E que eu estava apenas desperdiçando meu tempo livre que poderia usar pra carinhar minha própria alma.

    Cuidar melhor de mim.... Olha só que idéia bacana!

    ( Sim, isso mesmo, pra mim idéia vai ter acento pra sempre.)

    E neste dia desisti dos amigos feitos de açúcar, que se alquebram ao som do vento, se diluem em uma gota de cuspe e desistem de andar ao prenúncio de qualquer calinho do dedão. Não quero mais ocupar meu espaço interno com os volumes extras dos pouco afeitos a cuidarem de si mesmos, e menos ainda com ladainhas incessantes de mulherzinhas que não entenderam que a felicidade da gente veio atada à nossa carne e não à de um homem qualquer.  Porque eu ralo um bocado pra ser dona de mim, e não há mais tempo de me gastar com outra coisa que não sejam almas disponíveis à felicidade - vindo ela na cor-formato-sabor que vier.

    (...)

    É isto. Meu trânsito emocional está interrompido para os sem-coragem ou sem-vontade ou sem-talento para aproveitarem bem as suas estadias por esta nossa existência.

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    Escrito por A dona do jardim às 23h34
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    Definitivamente, eu me sinto em casa caminhando na Avenida Paulista.

    Meu total descompromisso, minha pose de flanêur, meu olhar que passeia pela variedade de pessoas e eu mesma que me vejo passeada por elas, curiosas, me trazem uma alegria enorme de poder estar aqui. Me sinto autônoma no anonimato que aquele lugar me proporciona e várias pequenezas e medos e receios perdem o sentido nessa meditação urbana que tais calçadas me proporcionam.

    Penso sempre no meu querer fazer parte daquilo tudo, de me ver paulistana nem que seja por uns tempos. Mas logo em seguida penso que a alegria desinteressada que sinto agora seria perdida se passasse a pertencer a este lugar.

    (...)

    Adoro estar paulistana. São sempre dias divertidos os meus de estar por aqui.



    Escrito por A dona do jardim às 21h13
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