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    Jardim dos Encontros


    Da série MESTRANDO-ME: Metafísica

    ***

    Marianne: Qu'ai-je à faire là où je n'existe pas?

    ***

    *Fazer o que lá onde eu não existo?



    Escrito por A dona do jardim às 17h36
    [] []



    Da série COISAS QUE NÃO INTERESSAM A NINGUÉM: A vida de todo dia da mulher no espelho

    ***

    Minha rotina atual é: processo de criação teatral + Mestrado + projeto corpo bonito e saudável + devaneios diários usuais e ou inéditos

    (...)

    Nada que, de fato, seja do interesse de alguém... Mas compartilhar é preciso, ainda que seja apenas com o vazio do universo virtual. E vamo que vamo!



    Escrito por A dona do jardim às 11h26
    [] []



    Da série FUTILIDADES, FRESCURAS E FRU-FRUS: Projeto "Salve-me quem puder!"

    Sou boa em delegar coisas. Em dias em que não tenho vontade de nada e o mundo lá fora parece mais 'lá fora' do que nunca, negociar em meu nome com a preguiça de nada vale. Passo então procuração para amigos, conhecidos e pessoas outras, para que elas me motivem a fazer o que preciso.

    O procedimento para emissão da procuração passa pelo meu ritual de toucador. Percebi cedo que isso funcionava. Eu, moça volúvel e de estima fraquinha que nem menina tísica, sou facilmente motivada por elogios e carinhos. E, nada mais eficiente para pedir um afago espontâneo do que a beleza. Basta chegar junto ao alguém que pode lhe prestar este maravilhoso serviço de polimento de ânimo que, plim!, o resultado vem. "Adorei o vestido!". "Como você está bonita!". "Arrasou na sombra"!... Minha alma se vende fácil para essas frases mágicas e pré-prontas, distribuídas aos borbotões em nossa terra chamada Bahia.

    (Arapuca simples de prender passarinho...)

    A inteligência é matéria mais sofisticada, bem menos acessível a elogios. O mesmo vale para o humor, o carinho e a generosidade, que detêm menor cotação no hall diário de elogios pouco solenes. A aparência física, talvez por sua suposta concretude, é facilmente pauta de encontros sociais variados e, Glória a Deus!, eu aceito sem pestanejar tudo que me ajude a entender que não sou um monstro-de-quatro-patas-disfarçado-de-mulher. Estima tísica e certezas frouxas: por mais que eu acredite que não tenho salvação, bastam algumas palavras jogadas ao vento pelo interlocutor que meu dia está salvo.

    E viva a frivolidade (!) que me liberta de dores profundas e acachapantes, capazes de me trancafiarem dentro de mim mesma. E com sombra-rímel-bons sapatos, mando embora o medo de enfrentar o sol que grita pra eu ir viver. Apenas para colher as doses do remedinho que me lembra que não sou um fracasso-feito-de-preguiças, vou pra rua e, já estando por lá, aproveito e vou existindo, assim, meio que sem prestar atenção mesmo...

    (Técnicas de guerra para manter em dia o bom-humor, que tenta escapar para além das trincheiras quando sou obrigada a entrar em um estado de espírito quando queria um outro).

    Arsenal básico: 30 minutos de coragem para armar a fantasia + hidratante-corretivo-sombra-lápis-rímel-blush-batom-perfume, nesta ordem + uma roupa que lhe ajude + um sorriso pré-pronto, que servirá de isca para os voluntários desse maravilhoso projeto de salvar a sua auto-estima.


     



    Escrito por A dona do jardim às 10h09
    [] []



    Da série BAÚ DE COISAS BOAS: Rolar no chão...

    CLÁUDIA (1971-1973)

    Jamais esqueço do meu nome / Original/ Nem do local de nascimento/ Rua de Tal

    Guardo no peito aquele amigo/ Surrado, sofrido/ Aquela esquina, aquele tempo/ Bem marginal

     

    Ter roupa velha no corpo/ Sapato gasto na sola/ A velha foto informal

    Daquele porre geral/ De tomar até cair no chão, rolar no chão e ser o próprio chão

    Aquele porre geral/ De tomar até cair no chão, rolar no chão e ser o próprio chão

     

    Na boca um gosto de serragem/ De doce sal/ Sentir no corpo uma fuligem/ Me sinto mal

    Arrepiando a penugem/ Reta final/ No desafogo da fuligem/ Coisa normal

    Ter roupa velha no corpo/ Sapato gasto na sola/ A velha foto informal

    Daquele porre geral/ De tomar até cair no chão, rolar no chão e ser o próprio chão

    Aquele porre geral/ De tomar até cair no chão, rolar no chão e ser o próprio chão



    Escrito por A dona do jardim às 18h47
    [] []



    Da série MENSAGEM NA GARRAFA: Telefone sem fio

    Aproximar...

    Encostar...

    Pressionar...

    Despressionar...

    Desencostar...

    Desaproximar...

    (...)

    Beijo é isto. Aquilo que você me deu se chama 'susto'.



    Escrito por A dona do jardim às 22h15
    [] []



    Da série RASCUNHOS POÉTICOS: Para o alto e avante!

    Parece que meu projeto de vinda a este mundo consiste em testar a tenacidade de minha carne, ossos e músculos.

    (...)

    As pessoas devem se divertir, ocultamente, em me dar tarefas tantas mais do que seria possível alguém suportar. Força-flexão-pulo-grito, tudojuntosemacento pra lembrar que sou ariana mesmo e estou aqui mesmo pra me pôr à prova.

    Abro os olhos e vejo demandas. Tarefas. Desejos. Caminhos. Lavar o rosto pela manhã é suportar o jorro de responsabilidades que a torneira despeja. Lançamento de vontades à distância.

    (Recordista mundial da prova de suor ao alvo!)

    Salvo pela chuva-samba-cerveja das noites passadas em claro, meu bom humor sugere ser imune à insanidade do restante do meu corpo. Vontade de cortar aparas, mas mirar meu próprio umbigo é notar sonhos brotando ventre afora, como se minhas entranhas produzissem quereres para existências futuras.

    Não; não se trata apenas de uma vontade de ter. (Ainda poderia ser de um melhor-ser.) Prefiro pensar que se trata de entretenimento saudável. Terapia ocupacional para uma mente habituada a criar monstros, que salta uma fogueira por dia, aplacando suas brasas com sorrisos e café a talagadas.

    Queria morrer pelas pernas e não pela mente, desejando apenas passadas mais largas para alcançar o pedestre à minha frente. O que dificulta é a mania chata de minha imaginação pregar peças, aguardando minha passagem escondida nas marquises da próxima esquina. Salta-pula-roda sobre a menina cansada, que mal suporta o peso dos ombros e ainda há de encontrar tônus para correr picula com seus ânimos de criança.

    Como é que nessa aventura de dia-dia hei de encontrar tempo para experimentar meu novo uniforme de super-heroína? Apertado-brilhante-antiperspirante e com uma enorme estrela no peito, só pra não me deixar esquecer que, no final das contas, terminamos todos mesmo é em poeira cósmica.



    Escrito por A dona do jardim às 22h05
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    Da série RASCUNHOS POÉTICOS: Mapa em fino traço

    Tá, tudo bem, admito; tem coisa errada aqui dentro...

    1, 2, 3 visto eu!

    Queria sabores diferentes, com menos sorrires e um tanto mais de tranquilidade/ Corpo que informa que sou feita de fluidos, e que pede uma outra coisa ausente na gôndola do mercado/ Olhar pra onde quando se tem os olhos fechados por conta do excesso de claridade?/ Na dúvida, segue-se o mesmo modus operandis de sempre, e persiste caminhando, ainda que se trombando nos móveis e pisando nos cristais de açúcar encontrados em dia de sol/ Inspiração se foi com a expiração forte causada pelo correr em círculos no topo de minha cabeça.

    (...)

    Perdi as palavras bonitas, e meus dizeres de flor escorreram entredentes sem que eu pudesse registrar o seu aroma. / Como era mesmo quando eu costumava morar em mim?/ Saltos mortais duplos de costas executados com a precisão de quem tem medo/ E fui eu que pedi pra me deixarem em paz, caída no que restava de coragem/ Agora olho pra cima e meu grito ecoa no vazio do meu peito/ Le vide et le plein - conceitualmente presentes no dia-dia da moça que dorme enrolada em si mesma.

    Um, dois, três salve ela!

    Talvez fosse só uma questão de braços/ Quem sabe se não é uma ausência de compartilhamento.../ Falta vontade de entender, porque tem tanta coisa acontecendo detrás da janela que preferia ter cortinas pesadas como meus ombros/ Me esconder na concha-quarto parece boa ideia apenas até o sol se pôr/ (Desgaste de saber que a luz se foi mas o receio de abrir as pestanas continua lá)/ Pegar mapas traçados em nanquim fino e usar a ponta dos dedos para tatear as certezas/ Talvez descobrir um caminho colorido / (Sim, eu sou lúdica, e as cores sempre são para mim sinal de festa íntima e imperdível.)/ Aceitar os suores necessários e fazer as malas, com não mais do que dois sapatos confortáveis e umas poucas fotos desbotadas/ Passado que passou e presente que se está/ Futuro é só combinação bonita de letras/ Placebo de animação semelhante à cenoura atada à testa do equino/ Seja qual for o legume que vai enganar meus ânimos, sigamos!

    (...)

    Mas... para onde eu estava indo mesmo?



    Escrito por A dona do jardim às 12h45
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    Da série A MOÇA NO ESPELHO: Estou aqui na plataforma da estação

    Vontade de escrever coisas tão bonitas quanto a combinação de cores da noite anterior/ Desgaste físico compensado por amores inteiros, de mim para eu mesma/ Para que mais do que um se aqui já residem tantos?/ Esses vizinhos têm sempre sorisos mais belos do que os meus/ Felicidade de ter alcançado a paz, mesmo que apenas por 10 segundos contados com os dedos dos pés / Para que olhar pela janela se dentro já tenho estradas tão longas quanto meus cabelos que florescem/ Vontade de que chegue logo a pessoa que ainda não conheço mas vou reconhecer de primeira/ Enquanto não chega ela cavalgando em lembranças sonhadas, me divirto com devaneios regados a suores do corpo/ Desgaste físico compensado pela alegria de fazer as pazes com a moça do espelho.

    Nota ao leitor: nunca duvide da combinação de verde e rosas!



    Escrito por A dona do jardim às 10h21
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    Da série AVENTURAS DIÁRIAS: Sei não...

    Tem uns encontros que, sei lá... desafiam a gente num grau que é preciso se agarrar com força às raízes do bom-senso para não deixar certezas e paz de espírito voarem pelos ares.

    Tem encaixes que, sei lá... parece que instalam estado de sudorese desmedida.

    Tem pessoas que, sei lá.... faz parecer difícil seguir em frente concentrada no caminho que antes já parecia tão bem escolhido.

    (...)

    Tem encontros que, de fato, me enchem de gostosas vontades tantas que demoro dias a retomar pro prumo.



    Escrito por A dona do jardim às 12h09
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    Da série RASCUNHOS POÉTICOS: Estradas sob os pés

    Como descobrir o caminho a ser seguido

    Se a Rosa-dos-Ventos que trago em meu peito

    não cessa um único instante de girar?...



    Escrito por A dona do jardim às 17h53
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    Da série MEMÓRIAS, SUSPIROS E DIP'NLICK: A cidade que já não existe

    Lendo esses dias um texto bem interessante sobre a relação do homem comum com a cidade, fui arrebatada pela lembrança do aeroporto de Salvador antes da reforma que o tornou o que é hoje. Explico: o texto de Maria Rita Kehl fala sobre a relação do homem com o espaço urbano que se cria, desaparece e se transforma diante dele, ao passo que as memórias dos que vivem ali não se atualizam da mesma forma linear, acumulando camadas de lembranças de hojes próximos e ontens bem distantes. E se juntando às novidades, estão memórias desbotadas, às vezes pregadas a lugares que não existem para além de suas recordações.

    A Pituba, bairro onde moro, continua sendo a Pituba, mas de tal forma transfigurada que os lugares que permeiam meus tempos que infância já não existem mais. O morro à frente de minha janela que deu lugar a uma praça, a lonjura da antena de TV na Federação substituída pela proximidade de novos edifícios, a amplidão do terreno verde cedida ao supermercado... Imagens que ficaram apenas dentro dos que vivenciaram aquele tempo, e que hoje perderam seus referentes concretos externos.

    É para mim o mesmo caso do antigo aeroporto, lembrança que carrego e compartilho com tantas pessoas e que já não existem fora do mundo imaginário de alguns. Quando criança, ir ao aeroporto era sinal inquestionável de novidade e alegria, ou porque iríamos pegar alguma pessoa querida ou porque nós mesmo estávamos partindo para alguma aventura distante. Sempre a família toda, que jamais recusava um passeio de carro até o outro lado da cidade, que parecia tão maior naquele tempo.

    Com as pessoas que viveram esse lugar, posso conversar sobre o antigo Palheta, sobre as altas cadeiras de engraxate no corredor próximo do embarque internacional, ou as tantas despedidas presenciadas quando ainda víamos a pista de pouso do balcão no primeiro andar. Eu posso passear por esses lugares, caminhar por entre as lojas de pedras, brinquedos ou a antiga livraria, porque elas ainda existem em mim. São reais e quase palpáveis, e me pertencem por completo. O que trago comigo é meu, e apenas meu, diga-se de passagem. Afinal, a memória é moça caprichosa, e nunca deixa de fazer um reparo aqui ou ali em pedaços que preferia ter diferente, apagando quadros e mais quadros que julgar desinteressantes. Como o referente real não mais existe, não sobra nada que não seja meu mundo interno, que posso percorrer por tantos dias quanto durarem os arquivos imagéticos que trago comigo. Pedaços vão desaparecer aos poucos, seja por falta de uso seja por força do desinteresse, até que um dia nada mais vai restar do que a lembrança de ter lembrado daquele lugar.

    No lugar, há de ficar só a certeza de ter trazido dentro de meu peito homens, mulheres, lugares, voares muitos e ansiedades tantas, carregando-os silenciosa por longos períodos. Tesouros secretos que alimento com zelo para, um dia, desaparecerem todos, como em uma festa que chega ao fim porque o relógio informa que agora há outras urgências para serem atendidas.


    Acrescentei a foto lá em cima quase um mês depois da postagem original porque não resisti a exibir meu furto virtual. Fonte: www.acnepaper.com Imperdível!

     



    Escrito por A dona do jardim às 17h41
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