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    Jardim dos Encontros


    Da série CHEZ MOI: Primeiros olhares

    Do meu quintal eu vejo o céu e os pássaros coloridos são meus visitantes.

    Lá no alto da ladeira a vida corre com pressa demais para que minhas pernas entendam agora...

    Dentro há silêncio, e barulhos de música que escolhi. Exercício duro de não-dizer, para mocinha habituada a gritar para se fazer escutar. Sentia saudade da maciez do silêncio, que recebeu esta filha pródiga com doçura e compreensão.

    Tenho tentado cumprir meus tempos, ainda que meu amigo não tenha me esperado como preciso. Até se dilata, se demora, se detém, mas tem seguido para frente com força de torrente, testando a força de meus músculos. (Todo ano tenho certeza de que o Tempo tem amor platônico pelo Dezembro, e quando o avista no fim do calendário, se desembesta rumo a um abraço desses de novela...)

    Meu quarto recebe o som, minha sala recebe a brisa, minha cozinha recebe o calor (afe!), meu quintal recepciona o sol.

    E termino com ele, meu pequeno cercado de azul e verde. Lindo como só o bem simples consegue ser.



    Escrito por A dona do jardim às 13h38
    [] []



    Da série DIAS DE FESTA: Re-consciência

    Lendo o caderno especial do maior jornal do Nordeste festejando o Dia Nacional da Consciência Negra não consegui não me emocionar.

    Os textos do A Tarde nunca são lá grande coisa, sabemos, mas abordou com a delicadeza o tema proposto que apenas o encarte da Muito tem feito nesses tempos. Cumpriu-se, mas não veio daí a reflexão, não. A gota de lágrima insistente em ser Poliana às vezes veio das imagens e não das letras. E sequer foram as de reportagem.

    O que me chamou a atenção e emocionou foram os anúncios publicitários.

    (!)

    Sabem todos (pelo menos os que se detiveram por um minuto que seja sobre as novas facetas do nosso antigo capitalismo) que o tal 'mercado', esse ente sem rosto mas não sem cérebro, já entendeu há tempos que as identidades são a bola da vez para tomar o rico dinheirinho de todos. Mulheres, homens, gordos, emos, rockers, nerds, GLSs, idosos, esportistas, yogues, vegetarianos, nordestinos, crianças, cristãos, solteiros; seja lá qual for o(s) nicho(s) que você decidir ocupar, o mercado estará lá oferecendo Algo perfeito para suas necessidades! E isso é feito com um cinismo tamanho que se torna risível se conseguimos enxergar o avesso das suas artimanhas, nem sempre muito engenhosas.

     

    Mas eu, menina-de-Pituba-criada-em-playground-de-vidro,

    com pais sulistas,

    que tinha que ir dormir na casa da empregada para construir algum senso de realidade sintonizado com a minha real identidade baiana,

    que já passei muita guanidina no cabelo antes de me entender black,

    que tive menos de 50 colegas negros em toda minha vida escolar,

    que já cortei mil dobrados explicando para as amigas (muitas delas boas, doces e inteligentes) o valor da diferença,

    que cresci indo no shopping center,

    que só acompanhava o Carnaval pela televisão (eca!) porque a população era muito perigosa,

    que JAMAIS teve contato com religiões/danças/músicas/roupas afrobaianas antes de ir com minhas próprias pernas atrás delas,

    que agradece a cada dia por ter vivido o Vila Velha e convivido com a força e estima do Bando,

    (...)

    para mim, moça que poderia ser uma tapada se não buscasse sair da concha assim que entendeu que uma a cercava...

    ver mulheres lindas, negras-com-cara-de-negra (e não com suas identidades sublocadas a um outro padrão de beleza), em diversas propagandas maravilhosas, tive o sentimento de que, finalmente, a pluralidade se expressa.

    Porque as fotos que vi ali não tem o tom de 'essa modelo só está aqui por causa da Lei das Cotas'. Elas são sérias e pensadas para aquelas mulheres. Nada de enfiar a bola na estrela. Nada de complexos na diferença!.E isso ajuda (MUUUUUUITO) uma penca de meninas por aí a fazerem as pazes com suas identidades em construção. Nada pior do que viver sem referências que lhe contemplem, tentando, a duras penas, se encaixar num padrão que acha que o seu tesouro é um estorvo.

    (Parênteses para lembrar da Cindy Crawford que foi dispensada da sua primeira agência porque se recusou a tirar sua famosa pinta; da cunhada de um amigo que há meses procura uma foto de um bebê negro em revistas para gestantes e do esforço das mulheres de Maria Mulher, de Porto Alegre, em encontrar bonecas negras para suas filhas e sobrinhas).

    Ver aquelas mulheres exercendo suas belezas sem traduções, sem concessões, me dá um orgulho tão grande de viver esta Bahia no encontro consigo. Não que estejamos no ideal, sei bem disso; mas é que por toda minha infância e adolescência era isso que faltava no meu entorno. E agora elas estão aí!

    (Não lembro de modelos não-brancas em propagandas dos shoppings que eu ia quando pequena...)

    Mulheres, homens, crianças, roupas, cabelos e cheiros que nos lembram que aqui nessa terra tem muita gente que sabe bem o valor que tem. Mesmo com todos os que lhe dizem o contrário. Gente que se entendeu consigo mesmo, e caminha para uma autoimagem mais forte e bem-resolvida. E, de lambuja, nos oferecendo uma fauna urbana das mais lindas que podemos encontrar.

    Sem hipocrisia, sem falsos moralismos, sem polianices, sem discurso politicamente correto: fiquei encantada com a diversidade casada com a beleza. E isso é suficiente para me fazer escrever isso.

    Feliz dia. Feliz Consciência. A cor é, para mim, o que menos importa..

    Axé!



    Escrito por A dona do jardim às 01h49
    [] []



    Da série RASCUNHOS POÉTICOS: Novo ângulo

    Me inclinando para ouvir o outro a minha frente, perdi o equilíbrio e dei com a cara no chão. Ferida doída que lateja do lado da cabeça, cuspindo idéias prontas sobre caminhos que eu desencontrei.

    Cansaço, de longa data, prega minha face com força no chão e faz o céu mais longe do que as remotas tribos de Lévy-Strauss. Desajuste sonoro, que ora envolve meu estômago ora toma conta de minha gramática. Meus músculos perderam a impáfia do meu olhar, tenho certeza disso sempre que nos admiramos mutuamente. Mas para onde mais olhar, se as insatisfações marcadas na pele são as mais lustrosas lembranças de passados de queda?

    Sentada, deitada, de pé, pulando: rotina ate-desate que me faz gargalhar apenas com os olhos, já que o resto se preocupa em me mostrar mais equilibrada do que jamais poderei ser.



    Escrito por A dona do jardim às 12h25
    [] []



    Da série FAÇA VOCÊ MESMO: Pesadelos

    MONTE SEU PESADELO!

    Utilizando apenas 06 ingredientes (lugar + temperatura + cheiro + elemento humano + elemento animal + som), crie a situação mais desagradável que você conseguir.


    Para entender, dou meu próprio exemplo:

    Eu, sozinha em um galpão mal-iluminado, com muitas sombras e luzes meio piscando + um frio do cão + o ar com cheiro de passarinha fritando + pedaços de corpo de manequim + baratas voadoras + Jorge Vercilo nas alturas = morte súbita desta que vos escreve.

    O de minha amiga Lamas, por exemplo, envolve jaca e sapos. Pra meu irmão, desinfetante de pinho. E conheci uma doida que se pela de medo de formigas.

    (...)

    Exercício de auto-conhecimento de segunda categoria, mas no mínimo curioso. Só pela diversão, na moral, pense aí as coisas sensoriais mais insuportáveis para você e me conte.

     



    Escrito por A dona do jardim às 16h36
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    Da série GINCANAS DIÁRIAS: Novos medos

    Processo de criação solo, meio solta; Mestrado atrasado como nunca imaginei que pudesse ficar; Mudança de casa (onde não tenho sequer um copo e uma faca); Morte-súbita do meu computador; Documentos perdidos pelo Correio; Dinheiro de mal-humor; Produção pequena que atrasou; Um afeto vindo de longe; Querendo emagrecer para ficar bonita; FIAC; aulas de francês necessárias para vida; Freelas para salvar as contas; Furacões na família...

    *

    *

    *

    *

    Ok, confesso: pela primeira vez acho que não vou conseguir, que não vai dar pé, que superestimei minha capacidade de trabalho, que MEFUDI de verdade. Na dúvida, me enchi de pó de guaraná, peguei um computador emprestado (de onde escrevo isso), aceitei o cafuné e vou sorrindo.

    Obrigada amigos lindos e torcedores diários, que têm feito meus dias possíveis e meu coração mais quente!



    Escrito por A dona do jardim às 12h19
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    Da série GRANDES DESCOBERTAS DA HUMANIDADE: Novo verbo

    Hoje notei que, finalmente, aprendi a fazer uma coisa que tentava há anos: ignorar.

    Tentando viver mais leve. Tentando me poupar da loucura do outro. Tentando dispensar os conflitos. Tentando rir mais.

    Há de dar tudo certo...

     



    Escrito por A dona do jardim às 19h14
    [] []



    Da série SUSPIROS

     *

              *

                        *

                                   *

                                             *

                                                       *

                                                                Ai, que vontade de Buenos Aires...



    Escrito por A dona do jardim às 17h57
    [] []



    Da série PRÓXIMOS PASSOS: Caminhando

    Caminante, son tus huellas el camino y nada más;

    Caminante, no hay camino, se hace camino al andar.

    Al andar se hace el camino,

    y al volver la vista atrás

    se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar.

    Caminante no hay camino sino estelas en la mar.

    Antônio Machado: poeta espanhol, 1875-1939.



    Escrito por A dona do jardim às 08h53
    [] []



    Da série GRANDES QUESTÕES DA HUMANIDADE/FURTOS VIRTUAIS: Câmbio...

    UMA DÚVIDA...

    Alguém lê isso?

    Se você está lendo isto, manifeste-se para eu saber que você existe.

    (Texto e ideia roubados do blog do amado Celsinho).



    Escrito por A dona do jardim às 21h00
    [] []



    Da série SUDORESE DIÁRIA: No caminho certo?

    Tudo bem que não trabalhei como devia no final de semana - devo ter dedicado uns 20% ao trabalho, uns 30% aos afetos e o resto ao merecido descanso. Tudo bem que não tenha a disciplina que pretendo ter. Tudo bem que sinto uma ponta de inveja daqueles que fazem as coisas sem esforço. Mais: inveja meeeeesmo dos que fazem as coisas sem sofrer e que declinam de convites sem dor. Tudo bem que sou uma louca desvairada que aceita muuuuuito mais coisas do que deveria. Tudo bem que a qualidade do que faço às vezes é expelida junto com meu suor. Tudo bem que meu dinheiro tem corrido porta afora como pequenos coelhos (rápidos) e assustados. Tudo bem que sou uma multi-foco, que perde um tempo danado devaneando - e escrever isto agora é prova disto. Tudo bem que sou dramática e tenho cer-te-za umas 3 vezes por ano de que a única solução de minha vida seria me matar.

    Tudo bem tudo isso... Mesmo!

    Porque estou tentando me amar, me respeitar, manter o humor, cuidar de meus afetos, ser responsável por mim. E sigo lu-tan-do para não achar que suor é sinônimo de competência, sob pena de me tornar uma moça arrogante-cheia-de-virtudes-à-moda-dos-protestantes-anglicanos-com-suas-roupas-pretas.  Eca!

    Não acho que sou melhor do que alguém que não eu mesma no dia anterior. Pra frente, pé a pé, passo a passo, dia a dia. Mas, peloamordeCristo, eu mereço bater palmas para mim mesma. E não me chicotear como costumo fazer. Burra, perdendo tempo dizendo que sou burra (hum... fiquei confusa agora. rsrsr). Não estou pedindo a ninguém que me ovacione em NADA. Se algum amigo quiser me ajudar, me ensine apenas a unir sonoramente as minhas mãos evocando minha auto-estima, como fizeram uns muitos queridos a dias atrás. (Na verdade alguns deles na real me deram foi uns safanões daqueles que estragam o penteado, mas agradeço mesmo assim tal doçura maldisfarçada...).

    Acho que mereço, com tanto esforço, crescer, ganhar dinheiro, amigos, saúde e conforto no final da corrida, porque tenho investido para isso. Sem que isso seja em detrimento de absolutamente ninguém (o seu sucesso não me constrange; minhas confusões que me deixam abobada). Acho que mereço, de verdade!

    Se alguém souber o endereço do guichê onde a gente deve apresentar os carnês de suor quitados para receber meu merecido prêmio composto de Felicidade/Sucesso/Auto-realização, manda pra mim que eu serei eternamente grata.

    E, à meia-noite e apenas na metade do trabalho, repito: Vamo que vamo!

    P.S.: E antes que eu me esqueça: os que não souberem lidar com as conquistas dos outros, per favore, vão catar coquinho! rsrsrs



    Escrito por A dona do jardim às 23h36
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    Da série FURTOS VIRTUAIS: Risadas de mau-agouro



    Escrito por A dona do jardim às 17h56
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    Da série AUTO-DOUTRINAÇÃO: Pecado capital

    E sigo, repetindo para mim mesma, para o mundo, para meu umbigo, para a TV e para todos os meus antepassados:

    EU TENHO DIREITO DE SENTIR PREGUIÇA!

    Ora, me deixem em paz, demoninhos infelizes da produtividade sem limites. Chega!



    Escrito por A dona do jardim às 20h32
    [] []



    Da série MENSAGEM NA GARRAFA: Amigos

    É... parece que está amanhecendo.

    (...)

    Obrigada àqueles que me vieram ajudar a abrir as cortinas. Obrigada.



    Escrito por A dona do jardim às 20h24
    [] []



    Da série FRAGMENTOS: Perguntas e respostas

    Após descobrir que estou muito mais cuidada por outros do que poderia supor no auge de minhas loucuras, me valho da força física para me fazer amanhecer. Caminhar para frente, com ou sem vontade; me mandaram fazer isso e estou obedecendo...

    Voltei hoje a meu processo de Fragmentos de um só, me dedicando ao solo 'Cartografia de um relevo interno', para falar dos tropeços solitários daqueles que inventam de criar um caminho só para si. O nome soa pomposo demais pro meu gosto e o tema não é novo, mas eu sou nova nele, e para mim isso basta para tornar tudo deliciosamente complicado.

    (Comida de se comer pelas beiradas, com colherzinha pequena para não engasgar)

    A regra, bem, tem sido 'menos dor', 'mais tranquilidade' e 'não tentar resolver tudonumrespirosó'. Assim, chegando a uma questão interessante na sala de ensaio, decidi compartilhar com os passeantes deste Jardim, e aguardar respostas para alimentar meu criar.

    Se você só pudesse levar 5 itens para uma longa viagem a um lugar desconhecido, o que você levaria?

    Só isso. Adorarei ter respostas. Mas entenderei os silêncios. Menos dor, não esqueça; esta é a regra deste espaço virtual até segunda ordem. Ainda que nas aventuras solitárias nem sempre possa ser assim tão simples...


    Para assistir: Viagem a Darjeeling. Da categoria 'lugares bonitos' e 'tem o Adrien Brody no elenco'. E porque é divertido mesmo...



    Escrito por A dona do jardim às 16h46
    [] []



    Da série ERRATAS: Alertas amarelos, verdes e vermelhos

    Olhe: tudo o que eu escrevi aí embaixo é verdade. Mas, como palavra escrita não tem 'tom' e eu odeio posar de lamurienta, aviso logo que a única parte importante é saber que estou cansada e confusa de verdade. Que o sono não tem ajudado. Mas que essas coisitas chatas são mesmo parte da vida, então não se gaste muito com isso não!

    Basta um cafunezinho para eu me distrair e todos os medos irem embora... Pelo menos é nisso que eu acredito.

    E mesmo sem vontade e morrendo de medo de todo o caminho, a máxima continua valendo: Vamo que vamo!

     



    Escrito por A dona do jardim às 08h56
    [] []



    Da série CONFISSÕES AO PÉ DO OUVIDO: Alerta vermelho

    Preciso compartilhar uma coisa com que quer que seja antes que eu exploda: temo estar enlouquecendo. Sem figuras de linguagem. Não consigo pensar em menos de 50 coisas ao mesmo tempo; sinto dores nos músculos e reações nas entranhas pelo simples poder da imaginação; pesadelos são recorrentes; esqueço as coisas ou penso que já as fiz; misturo realidade e sonho com cada vez mais frequência.

    Nem quando eu ouvia vozes na minha cabeça (sim, isso de fato aconteceu, lá pelos 12 anos de idade. Era horrível, gritavam na minha cabeça, determinando comportamentos, dando ordens. Nada agressivo ou perigoso, mas realmente assustador. Segundo os médicos, alguns sintomas esquizofrênicos são comuns em adolescentes, ainda que passageiros. ufa...) eu senti a minha mente tão pouco sob controle.

    Não vou mentir só pra ser A BOA que eu não tô com medo; porque eu estou apavorada com o que se passa aqui dentro...

    Amigos, pronunciai-vos!



    Escrito por A dona do jardim às 18h47
    [] []



    Da série CITAÇÕES: Como um rio que nasce

    Como um rio,

    que nasce de outros,

    saber seguir junto,

    com outros sendo e noutros se prolongando

    e construir o encontro com as águas grandes do oceano sem fim.

    Tiago de Melo (quem?rsrs)



    Escrito por A dona do jardim às 13h19
    [] []



    Ainda sobre necessidades...

    Viajar para mim é terapia das mais válidas. Pessoa preocupada com o olhar dos outros que sou (sim, esta sou eu!), tenho dificuldades em fazer mudanças estruturais frente àqueles que me conhecem de certa maneira. (Modus operandis que aprisiona...) Medo de solidão, certamente. Receio de me ver abandonada pelos olhos confusos dos amigos e convivas graças a mudanças loucas que minha alma insista em fazer.

    (Mutações diárias de Cosmos em constante explosão).

    Não tenho ganaa de solidão. Meu maior medo de criança era ser esquecida pelos meus pais no Shopping. (Marcas pequeno-burguesas que escondo sob camadas de discurso engajado) Como se meus passos errando entre as novidades coloridas das lojas fossem uma permissão para me deixarem ali. Culpa sugerindo que a inconstância resulta em repúdio do outro. Quero afetos sempre, então finjo que meus trânsitos internos são menos intensos do que o são de fato. Segredos liberados com menos impacto do que pensamos...

    Longe dos que me conhecem, o alívio de poder experimentar qualquer caminho. Os sussurros no peito podem então sair com a força necessária para diminuir a pressão sobre meus miolos. Personagem que desejar, conto para os outros histórias nada fantásticas sobre meus quereres, antes segredadas apenas à mulher no espelho. Desafio de me ver sem chão, em universo desconhecido e às vezes hostil, faz sempre eu me lembrar de que minha Loira Estrelada estava mesmo certa: não preciso de ninguém para cuidar de mim.

    Afagos são sempre bem-vindos, que não me interpretem mal! Mas a prisão de me saber atada à retina de um outro me deixa desesperada como a uma Joana que vê seu país incendiar-se. Meu material é o vento e a leveza e os limites apenas sugeridos e jamais marcados em linhas rígidas. Sou péssima com expectativas, sempre! Quando se tratam de meu próprios passos, não haveria de ser diferente.

    Se nem eu mesma posso advinhar o que vou fazer dali a poucos metros, como permitir que alguém se confie a meu modo de caminhar?...



    Escrito por A dona do jardim às 02h07
    [] []



    Da série CONFISSÕES AO PÉ DO OUVIDO: Necessidades básicas

    Sem segredos, há coisas que eu DE FATO preciso:

    • Morar na França por uns tempos;
    • Um alguém que me faça companhia, sem que eu precise fingir ser uma outra pessoa;
    • Ter um lugar só meu;
    • Decidir rumos a pequeno e médio prazo;
    • Emagrecer um pouco;
    • Controlar minha loucura, que engole a cada dia a minha sanidade;
    • Fazer cinema;
    • Escrever mais;
    • Voltar a Porto Alegre;
    • Viajar sozinha por uns tempos;
    • Uma sessão de acunpuntura, para ontem!


    Escrito por A dona do jardim às 01h47
    [] []



    Da série RASCUNHOS POÉTICOS: Aparando pedaços

    Escondendo palavras por baixo das cutículas. (Unhas que crescem e arranham o pensamento). Desgaste natural pelo contato com coisas sólidas e imutáveis, que se desenrolam pelo avesso como laranja descascada./ Desaprendi a chover amarelo, mas aperto as retinas procurando cores frias que tranquilizem a alma em brasa. / Vermelho fogo, ferro, fagulha, sangue-da-ponta-do-dedo, mordiscado pela fúria de calar as perguntas.

    Meu ventre cresce por excessos de mim mesma. (Alento necessário para dias de chuva sobre os meus juízos). Tempestade de idéias que uivam ao entrar pela janela e jogam as notícias diárias no chão./ Agachada sobre os papéis me vejo de novo nocauteada pelos medos de menina. /Não tenho mais coragem de olhar debaixo da cama: lá mora um monstro que se alimenta dos pedaços de mim mesma que arranco na esperança de ganhar uma alma mais leve.


    Fúria. Fuga. Ferro. Sorriso amarelo. Silêncios cor de açúcar. Ponto. E de noite eu vou dormir enrolada entre meus cachos.



    Escrito por A dona do jardim às 15h31
    [] []



    Da série A VIDA NAS RUAS: Suspiro poético

     "É a chuva entregando Agosto à Primavera..."

    (...)

     

    Afirmação para lá de poética, de uma vendedora de cafezinho mega-ultra-super bráu, sobre o tempo de Salvador ontem.

    Só para lembrar que a beleza é capaz mesmo de surgir de qualquer frestinha.



    Escrito por A dona do jardim às 08h37
    [] []



    Da série MESTRANDO-ME: Metafísica

    ***

    Marianne: Qu'ai-je à faire là où je n'existe pas?

    ***

    *Fazer o que lá onde eu não existo?



    Escrito por A dona do jardim às 17h36
    [] []



    Da série COISAS QUE NÃO INTERESSAM A NINGUÉM: A vida de todo dia da mulher no espelho

    ***

    Minha rotina atual é: processo de criação teatral + Mestrado + projeto corpo bonito e saudável + devaneios diários usuais e ou inéditos

    (...)

    Nada que, de fato, seja do interesse de alguém... Mas compartilhar é preciso, ainda que seja apenas com o vazio do universo virtual. E vamo que vamo!



    Escrito por A dona do jardim às 11h26
    [] []



    Da série FUTILIDADES, FRESCURAS E FRU-FRUS: Projeto "Salve-me quem puder!"

    Sou boa em delegar coisas. Em dias em que não tenho vontade de nada e o mundo lá fora parece mais 'lá fora' do que nunca, negociar em meu nome com a preguiça de nada vale. Passo então procuração para amigos, conhecidos e pessoas outras, para que elas me motivem a fazer o que preciso.

    O procedimento para emissão da procuração passa pelo meu ritual de toucador. Percebi cedo que isso funcionava. Eu, moça volúvel e de estima fraquinha que nem menina tísica, sou facilmente motivada por elogios e carinhos. E, nada mais eficiente para pedir um afago espontâneo do que a beleza. Basta chegar junto ao alguém que pode lhe prestar este maravilhoso serviço de polimento de ânimo que, plim!, o resultado vem. "Adorei o vestido!". "Como você está bonita!". "Arrasou na sombra"!... Minha alma se vende fácil para essas frases mágicas e pré-prontas, distribuídas aos borbotões em nossa terra chamada Bahia.

    (Arapuca simples de prender passarinho...)

    A inteligência é matéria mais sofisticada, bem menos acessível a elogios. O mesmo vale para o humor, o carinho e a generosidade, que detêm menor cotação no hall diário de elogios pouco solenes. A aparência física, talvez por sua suposta concretude, é facilmente pauta de encontros sociais variados e, Glória a Deus!, eu aceito sem pestanejar tudo que me ajude a entender que não sou um monstro-de-quatro-patas-disfarçado-de-mulher. Estima tísica e certezas frouxas: por mais que eu acredite que não tenho salvação, bastam algumas palavras jogadas ao vento pelo interlocutor que meu dia está salvo.

    E viva a frivolidade (!) que me liberta de dores profundas e acachapantes, capazes de me trancafiarem dentro de mim mesma. E com sombra-rímel-bons sapatos, mando embora o medo de enfrentar o sol que grita pra eu ir viver. Apenas para colher as doses do remedinho que me lembra que não sou um fracasso-feito-de-preguiças, vou pra rua e, já estando por lá, aproveito e vou existindo, assim, meio que sem prestar atenção mesmo...

    (Técnicas de guerra para manter em dia o bom-humor, que tenta escapar para além das trincheiras quando sou obrigada a entrar em um estado de espírito quando queria um outro).

    Arsenal básico: 30 minutos de coragem para armar a fantasia + hidratante-corretivo-sombra-lápis-rímel-blush-batom-perfume, nesta ordem + uma roupa que lhe ajude + um sorriso pré-pronto, que servirá de isca para os voluntários desse maravilhoso projeto de salvar a sua auto-estima.


     



    Escrito por A dona do jardim às 10h09
    [] []



    Da série BAÚ DE COISAS BOAS: Rolar no chão...

    CLÁUDIA (1971-1973)

    Jamais esqueço do meu nome / Original/ Nem do local de nascimento/ Rua de Tal

    Guardo no peito aquele amigo/ Surrado, sofrido/ Aquela esquina, aquele tempo/ Bem marginal

     

    Ter roupa velha no corpo/ Sapato gasto na sola/ A velha foto informal

    Daquele porre geral/ De tomar até cair no chão, rolar no chão e ser o próprio chão

    Aquele porre geral/ De tomar até cair no chão, rolar no chão e ser o próprio chão

     

    Na boca um gosto de serragem/ De doce sal/ Sentir no corpo uma fuligem/ Me sinto mal

    Arrepiando a penugem/ Reta final/ No desafogo da fuligem/ Coisa normal

    Ter roupa velha no corpo/ Sapato gasto na sola/ A velha foto informal

    Daquele porre geral/ De tomar até cair no chão, rolar no chão e ser o próprio chão

    Aquele porre geral/ De tomar até cair no chão, rolar no chão e ser o próprio chão



    Escrito por A dona do jardim às 18h47
    [] []



    Da série MENSAGEM NA GARRAFA: Telefone sem fio

    Aproximar...

    Encostar...

    Pressionar...

    Despressionar...

    Desencostar...

    Desaproximar...

    (...)

    Beijo é isto. Aquilo que você me deu se chama 'susto'.



    Escrito por A dona do jardim às 22h15
    [] []



    Da série RASCUNHOS POÉTICOS: Para o alto e avante!

    Parece que meu projeto de vinda a este mundo consiste em testar a tenacidade de minha carne, ossos e músculos.

    (...)

    As pessoas devem se divertir, ocultamente, em me dar tarefas tantas mais do que seria possível alguém suportar. Força-flexão-pulo-grito, tudojuntosemacento pra lembrar que sou ariana mesmo e estou aqui mesmo pra me pôr à prova.

    Abro os olhos e vejo demandas. Tarefas. Desejos. Caminhos. Lavar o rosto pela manhã é suportar o jorro de responsabilidades que a torneira despeja. Lançamento de vontades à distância.

    (Recordista mundial da prova de suor ao alvo!)

    Salvo pela chuva-samba-cerveja das noites passadas em claro, meu bom humor sugere ser imune à insanidade do restante do meu corpo. Vontade de cortar aparas, mas mirar meu próprio umbigo é notar sonhos brotando ventre afora, como se minhas entranhas produzissem quereres para existências futuras.

    Não; não se trata apenas de uma vontade de ter. (Ainda poderia ser de um melhor-ser.) Prefiro pensar que se trata de entretenimento saudável. Terapia ocupacional para uma mente habituada a criar monstros, que salta uma fogueira por dia, aplacando suas brasas com sorrisos e café a talagadas.

    Queria morrer pelas pernas e não pela mente, desejando apenas passadas mais largas para alcançar o pedestre à minha frente. O que dificulta é a mania chata de minha imaginação pregar peças, aguardando minha passagem escondida nas marquises da próxima esquina. Salta-pula-roda sobre a menina cansada, que mal suporta o peso dos ombros e ainda há de encontrar tônus para correr picula com seus ânimos de criança.

    Como é que nessa aventura de dia-dia hei de encontrar tempo para experimentar meu novo uniforme de super-heroína? Apertado-brilhante-antiperspirante e com uma enorme estrela no peito, só pra não me deixar esquecer que, no final das contas, terminamos todos mesmo é em poeira cósmica.



    Escrito por A dona do jardim às 22h05
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    Da série RASCUNHOS POÉTICOS: Mapa em fino traço

    Tá, tudo bem, admito; tem coisa errada aqui dentro...

    1, 2, 3 visto eu!

    Queria sabores diferentes, com menos sorrires e um tanto mais de tranquilidade/ Corpo que informa que sou feita de fluidos, e que pede uma outra coisa ausente na gôndola do mercado/ Olhar pra onde quando se tem os olhos fechados por conta do excesso de claridade?/ Na dúvida, segue-se o mesmo modus operandis de sempre, e persiste caminhando, ainda que se trombando nos móveis e pisando nos cristais de açúcar encontrados em dia de sol/ Inspiração se foi com a expiração forte causada pelo correr em círculos no topo de minha cabeça.

    (...)

    Perdi as palavras bonitas, e meus dizeres de flor escorreram entredentes sem que eu pudesse registrar o seu aroma. / Como era mesmo quando eu costumava morar em mim?/ Saltos mortais duplos de costas executados com a precisão de quem tem medo/ E fui eu que pedi pra me deixarem em paz, caída no que restava de coragem/ Agora olho pra cima e meu grito ecoa no vazio do meu peito/ Le vide et le plein - conceitualmente presentes no dia-dia da moça que dorme enrolada em si mesma.

    Um, dois, três salve ela!

    Talvez fosse só uma questão de braços/ Quem sabe se não é uma ausência de compartilhamento.../ Falta vontade de entender, porque tem tanta coisa acontecendo detrás da janela que preferia ter cortinas pesadas como meus ombros/ Me esconder na concha-quarto parece boa ideia apenas até o sol se pôr/ (Desgaste de saber que a luz se foi mas o receio de abrir as pestanas continua lá)/ Pegar mapas traçados em nanquim fino e usar a ponta dos dedos para tatear as certezas/ Talvez descobrir um caminho colorido / (Sim, eu sou lúdica, e as cores sempre são para mim sinal de festa íntima e imperdível.)/ Aceitar os suores necessários e fazer as malas, com não mais do que dois sapatos confortáveis e umas poucas fotos desbotadas/ Passado que passou e presente que se está/ Futuro é só combinação bonita de letras/ Placebo de animação semelhante à cenoura atada à testa do equino/ Seja qual for o legume que vai enganar meus ânimos, sigamos!

    (...)

    Mas... para onde eu estava indo mesmo?



    Escrito por A dona do jardim às 12h45
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    Da série A MOÇA NO ESPELHO: Estou aqui na plataforma da estação

    Vontade de escrever coisas tão bonitas quanto a combinação de cores da noite anterior/ Desgaste físico compensado por amores inteiros, de mim para eu mesma/ Para que mais do que um se aqui já residem tantos?/ Esses vizinhos têm sempre sorisos mais belos do que os meus/ Felicidade de ter alcançado a paz, mesmo que apenas por 10 segundos contados com os dedos dos pés / Para que olhar pela janela se dentro já tenho estradas tão longas quanto meus cabelos que florescem/ Vontade de que chegue logo a pessoa que ainda não conheço mas vou reconhecer de primeira/ Enquanto não chega ela cavalgando em lembranças sonhadas, me divirto com devaneios regados a suores do corpo/ Desgaste físico compensado pela alegria de fazer as pazes com a moça do espelho.

    Nota ao leitor: nunca duvide da combinação de verde e rosas!



    Escrito por A dona do jardim às 10h21
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    Da série AVENTURAS DIÁRIAS: Sei não...

    Tem uns encontros que, sei lá... desafiam a gente num grau que é preciso se agarrar com força às raízes do bom-senso para não deixar certezas e paz de espírito voarem pelos ares.

    Tem encaixes que, sei lá... parece que instalam estado de sudorese desmedida.

    Tem pessoas que, sei lá.... faz parecer difícil seguir em frente concentrada no caminho que antes já parecia tão bem escolhido.

    (...)

    Tem encontros que, de fato, me enchem de gostosas vontades tantas que demoro dias a retomar pro prumo.



    Escrito por A dona do jardim às 12h09
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